É incrível, como certas situações inimagináveis da vida,
tornam-se repentinamente parte do cotidiano.
Sempre que algum médico me indicava a caminhada
diária como um excelente coadjuvante dos medicamentos,
eu me aborrecia muito e achava um absurdo alguém sair
da sua casa todos os dias, para caminhar ao léu,
acreditando que sua saúde iria melhorar.
Hoje, estou aqui, montada em meu corcel branco e lilás,
caminhando pelas ruas dos bairros circunvizinhos.
Passo por várias vias que me dão acesso a tantos
outros lugares, gratuitamente.
Tenho tempo para pensar, admirar e vivenciar muitas
situações novas.
Estou conhecendo melhor o meu bairro, observando
a pluralidade de raças que o compõe, ao mesmo
tempo que o analiso socialmente. Há comércio em lojas,
galerias e intenso movimento de trabalhadores informais.
Observo as pessoas como componentes de um
enorme quadro pintado pela vida.
Algumas delas, estão como eu caminhando, outras logo cedo
nos bares tomando bebidas alcoólicas ou tomando o café da manhã
com salgadinhos gordurosos e refrigerantes. São pessoas
cujo corpo grita por cuidados, mas ainda não despertaram
para as providências necessárias para com o mesmo.
No mundo da fantasia, vejo compondo tudo isso, alguns
que passam por mim devaneando em voz alta ou então
gesticulando e balbuciando na sua própria quimera.
Posso também contemplar a natureza em árvores
imponentes inseridas em meio à tanta confusão.
As plantas miúdas também são observadas e admiradas
com curiosidade. Comecei a valorizar o meu próximo, compeendê-lo melhor e atentar para coisas que nunca tinha visto, como uma planta cheia de florzinhas amarelas, que sai de
dentro de um muro.
Estou quase chegando ao fim da minha cota de hoje
e só me resta aguçar os sentidos e absorver tudo,
em poucos minutos que ainda me restam.
Sinto o sol com todo seu poder de aquecer e clarear
os dias. O céu azul como se o mar tivesse se
elevado para compor essa minha experiência sagrada.
E assim, com um prazer inenarrável, termino
mais um dia de caminhada.
*
Licia Falcão Rodrigues da Silva.